sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

RELATO DE EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA

“A sensibilidade como Fator de Mudança Social”


Estamos vivendo em um mundo materialista, em que o ter e o poder são marcantes na vida das pessoas. Conversas e pensamentos consistem em pormenores fúteis e mesquinhos na produção de uma espécie de felicidade intransigente e preconceituosa. Valores, ética e respeito à vida dão lugar a prazeres carnais, dominadores e destrutivos. Aceitamos a violência, a miséria, a opressão e até mesmo a morte como ocorrências naturais dessa sociedade. São os “novos tempos” da atualidade. Acreditamos que tudo isso é implacável e condiz com as idéias da atualização e da mudança constantes. E ainda nos fazem acreditar que aceitar tudo isso como normal é estar preparado para um futuro que não espera por ninguém, não enxerga ninguém. E todas essas constatações são reflexos de uma cultura do real, do concreto, de uma sociedade que vive desta forma porque deixou de ser sensível, principalmente, ao ser humano.

Acredito que a única forma de reverter essa situação é pela Educação. É tentar trazer de volta a sensibilidade nas ações das pessoas. De reaprender a ver a vida por outros ângulos. Pensando nisso é que procurei trabalhar no Espaço Ler atividades que aguçavam nas crianças essa capacidade de tornar-se sensível. Primeiro foi conseguir que tivessem o gosto pela leitura, e isso foi alcançado. Depois foi aproveitar essa conquista para, através dela, trabalhar a sensibilidade. Muitas foram as atividades tendo esse objetivo, mas dentre elas merece destacar a experiência que será relatada a seguir.

Em consonância com a programação da Semana da Criança, o Espaço Ler desenvolveu uma atividade diferente e prazerosa: uma Oficina de Pintura, na qual os alunos refletiram o poema: “O Menino e o Muro”, de Sonia Junqueira, em que ele pinta o muro de sua casa por vê-lo escuro e sem vida. Em seguida conheciam e podiam fazer comparações, com a ajuda do professor, reproduções de algumas obras artísticas de pintores famosos como: Tarsila do Amaral, Cândido Portinari e Tao Sigulda com o poema declamado. Logo após eles ouviam algumas dicas a fim de exercer a sensibilidade, a criatividade e o poder transformador da arte visual no uso de formas e cores e fazer as suas pinturas relacionadas aos sentimentos manifestados com o poema e as obras observadas, pois a imaginação é o que desencadeia o processo renovador da realidade. Finalizando, todas as obras pintadas pelos alunos foram dispostas no pátio para visitação e apreciação por todas as turmas.

Dando continuidade ao trabalho sobre a sensibilidade, trabalhei com os alunos a contação da história “A Velhinha que dava nome às coisas”, de Cynthia Rylant, na qual a personagem central dava nome às coisas pelo fato da mesma ser muito idosa e ter todos os seus amigos e parentes falecidos. Como forma de tentar escapar da solidão, ela passa a ter sensações e apegos pelos objetos da casa, transformando-os em seus grandes e importantes amigos imaginários. No desenrolar da história aparece um cachorrinho marrom, que num primeiro momento ela hesita em dar-lhe um nome por medo que o mesmo morra primeiro que ela, pois não suportava a idéia de perder outro amigo.
Depois de um momento de bate-papo com a mediação do professor, em que os alunos comentaram as suas sensações e possíveis interpretações da história, eles tiveram a oportunidade de pensar em algo que é muito importante na vida deles. Fizeram, então um desenho, criaram ou falaram o nome para ele e, por fim, compuseram uma pequena quadra relatando o porquê da importância do desenho produzido. Essas atividades foram capazes de sensibilizá-los com as coisas simples que acompanham e colorem a nossa vida com as tintas do amor, do respeito, da solidariedade, etc, uma vez que atitudes e procedimentos positivos diante da realidade não só demonstram equilíbrio emocional do sujeito, mas exercem poder transformador no entorno.

Para a manutenção e execução do projeto, tive como recursos um ambiente favorável, bem como tintas de várias cores, pincéis, bandejas de isopor, reproduções de obras de pintores famosos, textos, história e material de expediente.

Como referencial em apoio à minha prática, tive a elaboração e aplicação de curso “Um mundo com mais Poesia”, que objetivou reconhecer que a sociedade atual necessita de pessoas com a sensibilidade aguçada, capazes assim, de transformar o mundo, o filme O Carteiro e o Poeta, o livro A Velhinha que dava nome às coisas, de Cynthia Rylant, cites de internet e o texto O Menino e o Muro, de Sonia Junqueira.

Acredito que o projeto desenvolvido teve êxito e colaborou para a sensibilização de meus alunos, no sentido de fazê-los refletir sobre as suas vidas e o ambiente onde estão inseridos. Os comentários tecidos e as atividades produzidas comprovam o que digo. Sendo assim, foi de grande valia e satisfação desenvolver a experiência relatada. Percebo que somente por meio de um trabalho sensibilizador é que as crianças tomarão ciência de que a sociedade precisa, além de pessoas críticas, autônomas e ousadas, necessita, também, de pessoas com sensibilidade em face de todas as mazelas e contradições presentes atualmente. Pessoas com capacidade de ver o mundo com outros olhos, principalmente com os olhos da compreensão e da fraternidade.

Bem disse Rubem Alves: “Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido”, pois as crianças têm uma capacidade que muitos eruditos não têm: os olhos encantados para as belezas simplórias do mundo que a rodeia. Assim, elas é que serão trabalhadas de forma a prevalecer com essa sensibilidade, na certeza de que representam o agente regenerador da sociedade do futuro.

É importante salientar que essas ações não se esgotam aqui, haja visto que elas terão continuidade em um Sarau com um teatro integrado entre as Oficinas de Leitura e o Espaço Ler que será apresentado na Mostra Literária.

Fernando Eugênio Tozzo
(Este relato foi escolhido e premiado pela Secretaria Municipal de Educação de Itaguaçu como sendo uma prática inovadora)

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