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sábado, 20 de fevereiro de 2010


ÉTICA E PRÁTICA EDUCATIVA, OUTRA VEZ

Cipriano Carlos Luckesi



Qual é um significativo fundamento para a conduta ética e o que isso tem a ver com a prática educativa?
Lee Yarley, professor de Religião na Stanford University, em um texto, que serviu de base para um diálogo com o Dalai Lama e outros pesquisadores, publicado no livro Emoções que Curam: conversas com o Dalai Lama sobre mente alerta, emoções e saúde, da Editora Rocco, 1999, sintetizou, de modo singular, as três posições éticas assumidas na filosofia ocidental, ao longo da história.
A primeira delas é “o individualismo [que] restringe a ética aos desejos do indivíduo. Ética, [no caso], envolve imaginar o que desejamos, e depois agir para obtê-lo”. Nessa perspectiva, uma conduta é ética, quando ela atende nossos interesses individuais, não importa como esse atendimento se faça. Importa que sejam atendidos. O centro de atenção é o nosso “eu”, ele é que deve ser satisfeito.
A segunda posição, detectada pelo autor, é a do “perfeccionismo [que] julga se os desejos do indivíduo são bons ou maus com relação ao ideal de uma pessoa perfeita. Esse ideal geralmente repousa na noção relacionada com o melhor estado possível da natureza humana”. Aqui há uma suposição metafísica de qual seja a conduta perfeita e todas as nossas condutas deverão ser avaliadas diante dessa, de tal modo que nossas decisões, no cotidiano, devam aproximar-se desse ideal. O que importa é a busca da perfeição da conduta em comparação com aquela que está definida como a ideal. Quem define esse ideal? E, finalmente, a terceira posição identificada é a do racionalismo, característica a mais “moderna e ocidental da três. Ele sustenta que a razão é o único guia ético adequado, definindo a razão como aquilo que possibilita que as pessoas pensem a respeito de proposições universais abstratas”. Aqui é a razão que deve definir o que é bom e o que não o é. Emanuel Kant, filósofo alemão do século XVIII, com muita influência sobre a sociedade moderna, dizia que deveríamos, em nossas vidas, “fazer as coisas de tal forma que todos pudessem fazer igual a nós”. Nesse princípio da ética kantiana não há um conteúdo a ser levado em consideração, mas somente uma forma racional pela qual devemos pautar nossas condutas, ou seja, devemos evitar agir de uma maneira que os outros não possam agir da mesma forma que nós. Somente pela razão podemos nos orientar nessa tarefa.
Concordo com o quadro sintético que esse autor traça das orientações assumidas pelo pensamento filosófico sobre a conduta ética no mundo ocidental, na medida em que esses têm sido os seus fundamentos, teoricamente, expostos pelos filósofos ao longo do tempo na história do ocidente. São fundamentos abstratos, metafísicos, praticamente sem vínculos com a vivência direta e imediata do ser humano em seu cotidiano, que envolve a si mesmo e aos outros.
Se o fundamento do ato ético depende do desejo de cada um de nós, deveríamos existir como seres isolados e independentes uns dos outros. Mas nossa realidade é individual e social, ao mesmo tempo. Somos seres sociais e não vivemos abstraídos das relações com os outros. Por outro lado, se o fundamento for a idéia de perfeição, quem definirá esse ideal e a partir de que parâmetro? Será um parâmetro existencial, histórico, ou será um parâmetro abstrato, sem contato com a experiência humana? E, por último, o parâmetro racionalista também nos coloca numa situação abstrata e metafísica, devido tomar como parâmetro a possibilidade do outro “fazer o que eu decido fazer e faço”. Então, a afirmação será: “O outro poderá fazer o que desejar, é claro! Cada um é livre de fazer o que quiser. Então, veremos quem pode mais; eu faço, os outros que façam se quiserem”. Nesse caso, chegaremos à barbárie, que, de certa forma, já vivenciamos em nosso cotidiano. Cada um faz o que quer, mas usualmente, não assume a responsabilidade pelo que fez. Quando as ações praticadas vêm à publico, o esforço é para negar que foi dessa forma que ocorreram as coisas. Vemos isso no noticiário veiculado pela imprensa diária em nossos meios de comunicação. Assim sendo, nenhum desses fundamentos são suficientemente satisfatórios para configurar uma prática ética que permeia as relações entre os seres humanos.Recentemente, temos compreendido que existe um fundamento muito mais significativo para a conduta ética. É a solidariedade. Ela, sim, é, a meu ver, um fundamento consistente para a conduta ética do ser humano. Enquanto as posições tomadas pelos filósofos ao longo do tempo, no ocidente, são abstratas, a solidariedade é concreta, na medida em que eu e o outro nos relacionamos na concretude do dia a dia. É no processo desse relacionamento que podemos encontrar um fundamento consistente para o nosso agir ético.
Entre os objetivos da educação para o século XXI, elaborados pela Unesco está o objetivo de “aprender a viver juntos”, que significa manter a nossa identidade e sobrevivência com dignidade, garantindo a identidade e a sobrevivência do outro. Esse objetivo expressa singularidade e a pluralidade de cada ser humano nas relações entre si. Afinal, e em primeiro lugar, somos todos seres humanos, e, em segundo lugar, nascidos no seio de povos, etnias, grupos culturais e religiões diferenciados. Deste modo, somos iguais e diferentes ao mesmo tempo. Assumir esse ponto de partida, a meu ver, é garantir um excelente fundamento para a conduta ética.
Na parte final do livro citado acima, o Dalai Lama diz que o fundamento para a conduta ética é a compaixão. “A força dominante da mente humana, ainda é a compaixão”, diz ele. Compaixão, aqui, não é uma pieguice, mas sim uma ação solidária para consigo mesmo e para com o outro. Eu necessito de viver bem, o outro também. Todos nós necessitamos dos outros e todos os outros necessitam de nós. As profissões são a expressão disso: todos nós necessitamos dos serviços e ações especializados dos outros e os outros necessitam das nossas ações e dos nossos serviços especializados, realizados com os cuidados necessários. Necessitamos e os outros necessitam de afeto, de atenção, de amizade, acolhimento e de solidariedade na aprendizagem e no viver.
O que isso tudo tem a ver com a prática educativa? A conduta ética do educador eficiente tem a ver com a solidariedade com o educando em sua trajetória de aprender e, por isso, garantir o seu desenvolvimento.
Todo ser humano tem direito à aprendizagem e ao desenvolvimento; e, como tal, o educando, se dirige à escola, pública ou particular, está em busca de aprendizagens significativas e, conseqüentemente, do seu desenvolvimento. No caso, o(a) educador(a) tem por compromisso, pelo lugar que ocupa na prática educativa, de ser solidário com o educando e isso significa ensinar eficientemente bem para que ele aprenda e, por aprender, se desenvolva.

Assim sendo, uma prática educativa pautada por uma conduta ética, a meu ver, está centrada no atendimento das necessidades do educando como aprendiz dos mais variados conteúdos escolares. Isso não significa, de modo algum, ensinar teoricamente condutas éticas aos educandos; “ensinar lições de moral”; significa, isto sim, praticar condutas éticas com eles, o que traduz o ditado que diz que “mais vale um exemplo do que mil palavras”.
Em nosso exercício profissional de educadores, o nosso próximo mais próximo é o educando, para agir junto ao qual deve estar desperto nosso sentimento ético. O sentimento ético verdadeiro, como todo e qualquer outro sentimento verdadeiro, conduz a uma ação benéfica, ou seja, compassiva (o que significa “agir com o outro” no seu modo de ser e na sua necessidade).
No nosso caso de educadores escolares, em relação aos nossos educandos, nossa conduta ética tem a ver com o outro, com a convivência com o outro, através do nosso serviço. Não estamos postos no lugar de educadores para fazer qualquer coisa, mas sim para realizar o melhor que podemos no ato de ensinar, para que efetivamente nosso educando aprenda e, por isso, se desenvolva.
Solidariedade é uma postura exigente para cada um de nós. Exige de nós mesmos o serviço ao outro, mas também exige do outro não só a receptividade do nosso serviço, mas também sua conduta de partilhar a tarefa que está sendo realizada e vivida. Ser solidário com o outro é pôr-se ao serviço do outro, mas, ao mesmo tempo, não ser permissivo, de tal forma que o outro receba o nosso serviço e, juntamente, com isso, invista no seu atutocrescimento. O que importa é estar a serviço do outro para que ele aprenda a ser independente, autônomo, senhor de si. Ser solidário é um investimento na libertação e autonomia de todos nós.Na sala de aulas, solidariedade significa dar boas e consistentes aulas, atender bem aos estudantes para que aprendam o que necessitam de aprender; proceder atos de avaliação que sejam significativos no sentido de diagnosticar as carências de aprendizagem que necessitam de ser superadas; reensinar, com paciência e de coração, tudo o que os estudantes não aprenderam da primeira vez; não desqualificar, não ridicularizar um educando, por mais estranha que seja sua conduta. Qualquer conduta deve ser ponto de partida para uma nova ação educativa. Um educador solidário é aquele que transforma todas as experiências, sejam elas quais forem, em atos educativos. Nada o assusta. Afinal, para ele, como para o pregador medieval Tertutiliano, “nada do que é humano é estranho”. Tudo é possível e de tudo pode-se aprender, se estivermos atentos na busca do cuidado e do desenvolvimento. Do que é satisfatório, confirmamos a satisfatoriedade; do que não é satisfatório, reconhecemos o pedido de ajuda e de busca de solução.

Luckasi é doutor em Educação, Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia.

(Este material foi obtido através do website de Cipriano Carlos Luckesi - www.luckesi.com.br)

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