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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

DEFININDO PRIORIDADES EM NOSSO PLANEJAMENTO

Um dos grandes desafios na atualidade consiste em como estamos tomando decisões sobre a forma de usar nosso tempo. E, certamente, sempre nos deparando com as conseqüências dessas decisões. Muitas vezes não gostamos delas, em virtude da lacuna entre a maneira como usamos nosso tempo e o que acreditamos ser realmente importante em nossas vidas.
A forma como organizamos o nosso tempo em função do planejamento de nossa prática docente também ocorre desta forma. Deparamos-nos com a dificuldade para colocar as prioridades em primeiro lugar. A chave está em não dar prioridade à agenda, mas em agendar as prioridades. Para colocar as prioridades de sua prática no devido lugar, é de fundamental importância agendar as metas.
As vivências de leitura e escrita devem ter seus momentos objetivados a fim de proporcionar aos educandos os resultados esperados segundo a apropriação sistemática da escrita e a formação de leitores proficientes. Estas são capacidades que devem ser bem estruturadas e planejadas com dedicação. Desta forma, criamos uma estrutura em que as decisões de qualidade, baseadas na importância, podem ser feitas momento a momento oportunizando possibilidades de aprendizagem de forma significativa para o educando. Neste sentido, podemos nos orientar em verificar qual é a nossa missão como educadores. E, no mesmo aspecto, perceber e definir a nossa missão de vida percebendo as coisas que são fundamentais à satisfação humana.
Para direcionarmos nossa prática tendo como base estes princípios é necessário um envolvimento consistente com o planejamento de forma flexível. Desta forma é possível perceber os pontos positivos e negativos presentes no processo e as decisões mais importantes a serem tomadas. Assim, antes de organizar a próxima etapa, façam-se as seguintes perguntas: quais as metas que atingi? Deparei com quais desafios? Que decisões tomei? Ao tomar as decisões, consegui manter as prioridades em primeiro lugar?
Quando passamos a pensar no planejamento mais em termos de importância, começamos a ver o tempo de um modo diferente. Tornamos-nos mais energizados para colocar as prioridades no devido lugar de uma forma significativa.
POR QUE O PERSONAGEM CHICO BENTO É BEM - VINDO EM NOSSA ESCOLA?

Agora acredito verdadeiramente que o mundo dá voltas. E como dá voltas! Para falar a verdade, o meu mundo anda dando umas voltas a meu favor...
Lembro-me muito bem da época em que vivia no interior. Acordar cedo, tomar leite quentinho tirado na hora, comida caseira do fogão a lenha, almoçar às 8h30min, enfim, tantas coisas agradáveis e sadias que ficaram na memória. Eu já era feliz e não sabia!
Eu estudava em uma escola unidocente bem na frente de um lago onde se avistavam capivaras, quero-queros, patinhos d’água e tantos outros bichos que de vez em quanto enfeitavam a paisagem com sua ágil presença. A maioria dos meus colegas era de origem pomerana e, para minha surpresa, quando não falavam com um forte sotaque, falavam inteiramente pomerano mesmo. Eu ficava com uma vergonha danada. Primeiro por não entendê-los claramente e depois por ser de origem italiana e não dispor de uma mísera palavra, a mais simples que fosse para exibi-la como um troféu italiano. Como eu adorava aquela situação comunicativa: meus colegas me pedindo em pomerano para trocar meus pequenos pedaços de pão com manteiga por pedaços a metro do famoso brot alemão com uma generosa porção de banha com açúcar por cima. E eu, na minha digníssima ingenuidade, pensando que seria legal responder que faria a troca utilizando as mais belas palavras da descendente latina. Por incrível que pareça, foi nesse contexto que eu acredito que eu fui me apropriando da leitura e da escrita na Escola Unidocente Pontal.
Mas o melhor ainda estava por vir. Toda essa interação escola/comunidade se tornava mais evidente quando eu ia a Vitória na casa de meus primos. Eles achavam uma “gracinha” o meu jeito “cantado” de falar. Achavam mais interessante ainda o meu vasto “repertório” lingüístico do tipo: “espia”, “piquei fora”, “bolinha carambola”, etc, que, segundo eles, soava fino como corda de viola no sertão (Não com essas palavras, é claro!). Quando eles iam analisar a minha forma musical e engraçadinha de falar, me diziam com o discurso dos mais altos inquisitores que era porque eu morava na roça e quem mora na roça não fala direitinho como eles que moravam na corte da Ilha.
Bem, eu achava mais estranho ainda o fato do menininho cantor do interior estudar na escola o nome de todos os municípios do estado e, por isso, não estranhar qualquer um deles. Mas os intelectuais do Príncipe estranharem quando eu dizia que morava em Itaguaçu, que fica próximo a Itarana, Santa Maria de Jeribá... Eles nunca sabiam onde ficava. Alguns arriscavam perguntar se era de Minas Gerais.
Are baba! Se fosse indiano me atirava no Ghanges. Mas agora, com o Pró-Letramento, tenho convicção de que tudo isso não foi em vão. Agora sei que minha forma sonora e divertida de me expressar tem explicação do ponto de vista linguístico. Estou ciente que represento o garoto do campo que tem na família uma estrutura fortalecida e valorizada, que mantém como cultura e meio de sobrevivência a horta, as aves, os animais e os cereais. Preserva valores como o amor, a honestidade, a coragem e a simplicidade. E as gírias que eles tanto me bombardeavam os ouvidos: “aê mano”, “caraca”, “na maior”. Elas apenas existem hoje porque foram criadas aleatoriamente como forma preconceituosa de atacar nossa paciência. É por isso, Maurício, que o nosso Chico Bento será sempre bem-vindo na nossa escola, pois ele contribuirá decisivamente para unificar nossos laços de respeito aos aspectos linguísticos adotados pelos falantes da nossa Língua Portuguesa - “ultima flor do Lácio, inculta e bela” – que é declamada solenemente nos corredores e salas de aula de nossa escola.
Fernando Eugênio Tozzo
REFERÊNCIAS

AG, Revista. Editorial. A Gazeta. Domingo, 21 de junho de 2009.
CÓRIO, Maria de Lourdes Del Fáveri. O Personagem “Chico Bento”, Suas Ações E Seu Contexto: Um Elo Entre a Tradição e a Modernidade. São Paulo: UNIMAR, 2006. (Tese de Mestrado)

Pró-Letramento: Programa de Formação de Professores dos Anos/Séries Iniciais do Ensino Fundamental: alfabetização e linguagem. – Secretaria de Educação Básica – Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de educação Básica, 2008.

UMA PIPA NO CÉU...


A vida exige leveza, assim como a viagem. A estrada fica mais bonita quando podemos olhá-la sem o peso de malas nas mãos.
Seguir leve é desafio. Há paradas que nos motivam compras, suplementos que julgamos precisar num tempo que ainda não nos pertence, e que nem sabemos se o teremos.
Temos a pretensão de preparar o futuro. Eu tenho. Talvez você tenha também. É bom que a gente se ocupe de coisas futuras, mas tenho receio que a ocupação seja demasiada. Temo que na honesta tentativa de me projetar, eu me esqueça de ficar no hoje da vida.
Os pesos nascem desta articulação. Coisas do passado, do presente e do futuro. Tudo num tempo só.
Há uma cena que me ensina sobre tudo isso. Vejo o menino e sua pipa que não sobe ao céu. Eu o observo de longe. Ele faz de tudo. Mexe na estrutura, diminui o tamanho da rabiola, e nada. O pequeno recorte de papel colorido, preso na estrutura de alguns feixes de bambu retorcidos se recusa a conhecer as alturas.
O menino se empenha. Sabe muito bem que uma pipa só tem sentido se for feita para voar. Ele acredita no que ouviu. Alguém o ensinou o que é uma pipa, e para que serve. Ele acredita no que viu. Alguém já empinou uma pipa ao seu lado. O que ele agora precisa é repetir o gesto. Ele tenta, mas a pipa está momentaneamente impossibilitada de cumprir a função que possui.
Sem desistir do projeto, o menino continua o seu empenho. Busca soluções. Olha para os amigos que estão ao lado e pede ajuda. Aos poucos eles se juntam e realizam gestos de intervenção...
Por fim, ele tenta mais uma vez. O milagre acontece. Obedecendo ao destino dos ventos, a pipa vai se desprendendo das mãos do menino. A linha que até então estava solta vai se esticando. O que antes estava preso ao chão, aos poucos, bem aos poucos, vai ganhando a imensidão do céu.
O rosto do menino se desprende no mesmo momento em que a pipa inicia a sua subida. O sorriso nasceu, floresceu leve, sem querer futuro, sem querer passado. Sorriso de querer só o presente. As linhas nas mãos. A pipa no céu...


Padre Fábio de Melo (site)

RUBEM ALVES

"Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro..."

RETROCESSO

O visitante estranhou porque, quando o levaram para conhecer a sala de aula do futuro, não havia uma professora-robô, mas duas. A única diferença entre as duas era que uma era feita totalmente de plástico e fibra de vidro — fora, claro, a tela do seu visor e seus componentes eletrônicos —, e a outra era acolchoada. Uma falava com as crianças com sua voz metálica e mostrava figuras, números e cenas coloridas no seu visor, e a outra ficava quieta num canto. Uma comandava a sala, tinha resposta para tudo e centralizava toda a atenção dos alunos, que pareciam conviver muito bem com a sua presença dinâmica, a outra dava a impressão de estar esquecida ali, como uma experiência errada.
O visitante acompanhou, fascinado, uma aula como ela seria num futuro em que o computador tivesse substituído o professor. O entendimento entre a máquina e as crianças era perfeito. A máquina falava com clareza e estava programada de acordo com métodos pedagógicos cientificamente testados durante anos. Quando não entendiam qualquer coisa as crianças sabiam exatamente que botões apertar para que a professora-robô repetisse a lição ou, em rápidos segundos, a reformulasse, para melhor compreensão. (As crianças do futuro já nascerão sabendo que botões apertar.)
— Fantástico! — comentou o visitante.
— Não é? — concordou o técnico, sorrindo com satisfação.
Foi quando uma das crianças, errando o botão, prendeu o dedo no teclado da professora-robô. Nada grave. O teclado tinha sido cientificamente preparado para não oferecer qualquer risco aos dedos infantis. Mesmo assim, doeu, e a criança começou a chorar. Ao captar o som do choro nos seus sensores, a professora-robô desligou-se automaticamente. Exatamente ao mesmo tempo, o outro robô acendeu-se automaticamente. Dirigiu-se para a criança que chorava e a pegou no colo com os braços de imitação, embalando-a no seu colo acolchoado e dizendo palavras de carinho e conforto numa voz parecida com a do outro robô, só que bem menos metálica. Passada a crise, a criança, consolada e restabelecida, foi colocada no chão e retomou seu lugar entre as outras. A segunda professora-robô voltou para o seu canto e se desligou enquanto a primeira voltou à vida e à aula.
— Fantástico! — repetiu o visitante.
— Não é? — concordou o técnico, ainda mais satisfeito.
— Mas me diga uma coisa... — começou a dizer o visitante.
— Sim?
— Se entendi bem, o segundo robô só existe para fazer a parte mais, digamos, maternal do trabalho pedagógico, enquanto o primeiro faz a parte técnica.
— Exatamente.
— Não seria mais prático — sugeriu o visitante — reunir as duas funções num mesmo robô?Imediatamente o visitante viu que tinha dito uma bobagem. O técnico sorriu com condescendência.
— Isso — explicou — seria um retrocesso.
— Por quê?
— Estaríamos de volta ao ser humano.
E o técnico sacudiu a cabeça, desanimado. Decididamente, o visitante não entendia de futuro.

Luís Fernando Veríssirno. In Nova Escola. São Paulo. Abril, out. 1990. p. 19.

ESTATUTOS DO HOMEM

Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. Parágrafo único: O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo. Artigo VIII Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas
que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura. Artigo X Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.
Artigo XI Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final. Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.


Thiago de Mello